Morri. Meu enterro aconteceu no cemitério Saudade, em Riviés. Passei boa parte da vida crente [por mais cética declarada em determinado momento] de que o instante mortífero seria estranho. Ledo engano. Mais familiar impossível. Aqui estou eu, mortinha da silva, sem ao certo saber descrever qual é, afinal, a diferença entre o estado acordado e o estado dormindo nesta, ora brecha, em que supus matar tudo, inclusive minha consciência. Talvez devesse matar este conto, diriam meus inimigos. Na verdade, tudo sempre ocorreu, o dia em que o garoto mais bonito do colégio me beijou até o trauma de infância por ter perdido uma amiga que caiu do limoneiro no jardim da casa da dona Antônia e sofreu traumatismo craniano. Coisas da vida.
Vamos ao meu suposto velório. Deduzo, pois não vi as pessoas que choravam em torno do meu corpo, nem o desmaio da tia Augusta em meio a solenidade do ato e tampouco meu rosto inocente de quem não sabe nada do que aconteceu, coberta por um véu branco, bonita e serena, à espera de um cutucão que me acordasse. Agora sei exatamente o que vovó pensou no estado em que me acho. Aquele dia lá, quando estive prestes a completar 11 anos, eu a via sorrir pra mim, deitada dentro de uma caixa enfeitada por flores, descansando um sono invejável. Pensei comigo que talvez estivesse sentindo uma vontade louca de divagar por aí, como fazem os espíritos livres. Como eu, nesse momento, morta. Viajar pela Europa e conhecer o Monteparnasse onde descansam meus escritores preferidos. Sem a preocupação do peso da mochila, só uma bagagem de lembranças e um amontoado de vontades. Topar com Anäis e acender com ela um cigarro em meio aquele silêncio sepulcral, sentadas na tumba assistindo o choro baixinho de uma anciã em frente ao jazigo de seu falecido e amado companheiro. Quem sabe não chamaríamos a atenção de Breton? Duas mulheres sentadas sorumbaticamente sentadas, vendo-o desesperadamente procurar por Nadja. Talvez encontre Voltaire por ali, gargalhando uma gargalhada voraz a ecoar entre nós, os mortos, durante um episódio cômico no qual Housseau perderia um de seus sapatos, preso na rachadura de uma catacumba. Vai saber. Vai saber. Por fim, cruzaria com Schopenhauer numa dessas esquinas e ele me diria: viu só como morrer é bom?
14 Setembro, 2009
Que coisa engraçada esta sensação de ansiedade pela próxima estação. Há uma mistura na brisa, como num bolo de mais frio que calor e um certo aroma de início. Já não era sem tempo, largar as meias, a lã, pelo chinelo havaina e suco de maçã.
Que coisa mais estranha estes cidadãos da província, Dalton, Cristóvão, Paulo e José. Clamam por ela, chega de cinzas, chega de nuvem, queremos as flores, a Rua das flores. Não está mais na moda velr o Oil Man e escrever sobre Curitiba agora virou lazer.
Disposto ou indisposto irás ouvir violino e terás que comprar um cd. Merdosa ou espirituosa, se acaso não lhe fala mais nada é porque esquecestes do que que é geada. Aqui não adianta, se biógrafo ou autógrafo, terás que carpinejar muito. Gostar de Curitiba não é questão de dever. Enjoadinha, narcisista e fodinha, esta cidade mesmo é um tezzão.
Que coisa mais estranha estes cidadãos da província, Dalton, Cristóvão, Paulo e José. Clamam por ela, chega de cinzas, chega de nuvem, queremos as flores, a Rua das flores. Não está mais na moda velr o Oil Man e escrever sobre Curitiba agora virou lazer.
Disposto ou indisposto irás ouvir violino e terás que comprar um cd. Merdosa ou espirituosa, se acaso não lhe fala mais nada é porque esquecestes do que que é geada. Aqui não adianta, se biógrafo ou autógrafo, terás que carpinejar muito. Gostar de Curitiba não é questão de dever. Enjoadinha, narcisista e fodinha, esta cidade mesmo é um tezzão.
"Deus lhe deu esta benção para que agora caminhes até a glorificação e uma vez livre da tentação de Satanás irás finalmente na paz de nosso Sr. Jesus Cristo encontrar um emprego que..."
No ponto em frente a igreja Joana observava uma legião de prosélitos caracterizados pelo porte alinhado e cabelo escovado que, descontraídos, retiravam-se da missa, fascinados pelo culto naquele dia onde o pastor havia livrado uma alma do mal.
De saia curta, porque curta mostra melhor as pernas, o que ela mais apreciava em seu corpo, forte e bronzeado, seu gingado não mais que um poema, nem prosa ou verso, resumia-se num pedaço de guardanapo de um bordel qualquer, batom envelhecido, cheiro forte do alcóol misturado ao hálito de cigarro, perfume almíscar que demorou a escolher mais de meia hora no supermercado, julgando ter gosto apurado. Joana massageia seu ego numa postura torta e desalinhada, pode parecer mentira, mas desta maneira Joana se envaidece. No finzinho da tarde que é quando começa a labuta, passa na banca do seu Genival comprar pirulito, que segundo ela, excita os homens enquanto permanece em frente a BR. Gosta desta vida porque, maliciosa, revela ser uma profissional em fazer direitinho e cansou de atender clientes cansados das negas de casa que não dão o cuzinho, mesmo eles pedindo com jeitinho. Cochicha neles e volta e meia uma gargalhada severa e contundente, pouco se importa se na rua ou no ponto. Não faz as unhas todos os dias, despreocupada com o corpo, porque no fundo sabe que ele não vale mais que seus sentimentos. Joana reclama da concorrência, não das que dividem o ponto na Rua 13 de Maio, mas aquelas que roubam seus clientes na balada, meninas moças que não cobram nada e que, para ela, "são as piores", porque geralmente vendem-se por um copo de "birita" ou um "doce" qualquer, por isso foi para a estrada. "Lá os moços pagam melhor e ainda tratam a gente como princesa". Diz.
No olhar ainda existe algo comum, seriam sonhos, fantasias ou desejos? De altar, cantar ou se enganar? Jura que quer casar. Sonhadora, diz almejar aquele que não a possua todos os dias, por obrigação ou favor, mas um que somente a abrace e enlace o que ela diz ter no peito, mas que ninguém não acredita nem nunca viu.
Há nela alguma coisa de Izolda Petroski, numa vida que se resume em dança romanesca, algo deliberado em absolvição quase maculada, não isenta de amor.
No ponto em frente a igreja Joana observava uma legião de prosélitos caracterizados pelo porte alinhado e cabelo escovado que, descontraídos, retiravam-se da missa, fascinados pelo culto naquele dia onde o pastor havia livrado uma alma do mal.
De saia curta, porque curta mostra melhor as pernas, o que ela mais apreciava em seu corpo, forte e bronzeado, seu gingado não mais que um poema, nem prosa ou verso, resumia-se num pedaço de guardanapo de um bordel qualquer, batom envelhecido, cheiro forte do alcóol misturado ao hálito de cigarro, perfume almíscar que demorou a escolher mais de meia hora no supermercado, julgando ter gosto apurado. Joana massageia seu ego numa postura torta e desalinhada, pode parecer mentira, mas desta maneira Joana se envaidece. No finzinho da tarde que é quando começa a labuta, passa na banca do seu Genival comprar pirulito, que segundo ela, excita os homens enquanto permanece em frente a BR. Gosta desta vida porque, maliciosa, revela ser uma profissional em fazer direitinho e cansou de atender clientes cansados das negas de casa que não dão o cuzinho, mesmo eles pedindo com jeitinho. Cochicha neles e volta e meia uma gargalhada severa e contundente, pouco se importa se na rua ou no ponto. Não faz as unhas todos os dias, despreocupada com o corpo, porque no fundo sabe que ele não vale mais que seus sentimentos. Joana reclama da concorrência, não das que dividem o ponto na Rua 13 de Maio, mas aquelas que roubam seus clientes na balada, meninas moças que não cobram nada e que, para ela, "são as piores", porque geralmente vendem-se por um copo de "birita" ou um "doce" qualquer, por isso foi para a estrada. "Lá os moços pagam melhor e ainda tratam a gente como princesa". Diz.
No olhar ainda existe algo comum, seriam sonhos, fantasias ou desejos? De altar, cantar ou se enganar? Jura que quer casar. Sonhadora, diz almejar aquele que não a possua todos os dias, por obrigação ou favor, mas um que somente a abrace e enlace o que ela diz ter no peito, mas que ninguém não acredita nem nunca viu.
Há nela alguma coisa de Izolda Petroski, numa vida que se resume em dança romanesca, algo deliberado em absolvição quase maculada, não isenta de amor.
24 Agosto, 2009
A pele (a)guarda
o fino unto
espesso cravado
no espaço infinito
entre nós
Despeço a áurea criada
pela alma
a fingir calma
quando tudo foi fuga
por cinco dias
iguais na cama
iguais no banho
tão (in)diferentes
neste anseio
só
devaneio.
o fino unto
espesso cravado
no espaço infinito
entre nós
Despeço a áurea criada
pela alma
a fingir calma
quando tudo foi fuga
por cinco dias
iguais na cama
iguais no banho
tão (in)diferentes
neste anseio
só
devaneio.
19 Agosto, 2009
Das pessoas que apareceram na minha vida.
Beijos que provei. Vozes que ouvi.
Universos ingulares. Passos na calçada.
Atravessas.
Das doenças que tive. Paixões febris.
Noites reviradas relembrando.
Recriando estratégias de abordagens.
Taquicardia.
Das mãos que peguei. Pegaram-me.
Poemas.
Dos sussurros. Comentários mudos nos ouvidos.
Pelôs quase imperceptíveis a olho nu.
Disse segredos.
Do olhar que perdi. Volto atrás.
Não vi.
Do pensamento:
devia ter ido pra você há muito tempo.
Do pedido. Volta.
Do meu sumiço. Saudade.
Das relevâncias. Cantorias.
Da melodia capaz de trazer à tona a lembrança
da tua voz. Rouca.
E as compreensões.
Ninguém te fez justiça, nem você.
Das tuas imperfeições tão perfeitamente cabíveis.
Do sono velado. Uma perda de tempo.
Zombe ou dê de ombros.
Dane-se tudo.
Debaixo delas, você oculto.
Das minhas buscas em algum lugar onde ninguém esteve.
Das procuras. Silêncio.
Do teu jeito. Tudo se ajeita.
Ajusta.
A beleza. A Virtude.
Espera.
Campos verdes e floridos.
Cachoeiras reluzindo.
Pedras moldadas. Formatos únicos.
Nuvens desenhadas.
Dos caminhos. Escolhas.
Teus valores.
Teu andar. Firme.
Das reticências.
Do meu amor por você.
Beijos que provei. Vozes que ouvi.
Universos ingulares. Passos na calçada.
Atravessas.
Das doenças que tive. Paixões febris.
Noites reviradas relembrando.
Recriando estratégias de abordagens.
Taquicardia.
Das mãos que peguei. Pegaram-me.
Poemas.
Dos sussurros. Comentários mudos nos ouvidos.
Pelôs quase imperceptíveis a olho nu.
Disse segredos.
Do olhar que perdi. Volto atrás.
Não vi.
Do pensamento:
devia ter ido pra você há muito tempo.
Do pedido. Volta.
Do meu sumiço. Saudade.
Das relevâncias. Cantorias.
Da melodia capaz de trazer à tona a lembrança
da tua voz. Rouca.
E as compreensões.
Ninguém te fez justiça, nem você.
Das tuas imperfeições tão perfeitamente cabíveis.
Do sono velado. Uma perda de tempo.
Zombe ou dê de ombros.
Dane-se tudo.
Debaixo delas, você oculto.
Das minhas buscas em algum lugar onde ninguém esteve.
Das procuras. Silêncio.
Do teu jeito. Tudo se ajeita.
Ajusta.
A beleza. A Virtude.
Espera.
Campos verdes e floridos.
Cachoeiras reluzindo.
Pedras moldadas. Formatos únicos.
Nuvens desenhadas.
Dos caminhos. Escolhas.
Teus valores.
Teu andar. Firme.
Das reticências.
Do meu amor por você.
17 Agosto, 2009
- Caralho! Não é sempre que isso acontece!! O sujeito estava para ser fritado numa cadeira elétrica, seu único e último desejo era comer um sonho de doce de leite. Momentos antes, a cadeira pifou, recorreram à agulha, privilégio ter a morte doce, indolor e lenta, porém, os farmacêuticos não compraram a dose na medida certa e a morte foi adiada. Sem contar que a servente não chegou a tempo para limpar os dejetos do corpo, sabe como são as coisas, um cabelo frito, uma pele derretida, respingos no chão, saliva, ossos.
O que eu venho fazendo: Estou esperando o projeto de um físico-quântico que disse ser capaz de teletransportar corpos em linhas telefônicas. Não sei como iremos fazer. Não posso fingir que não tenho medo, posso ter os ossos quebrados ao tentar sair. Também preciso lhe confessar sobre o vale ingresso que adquiri esta semana, um passaporte à reflexão. Você causou. O que eu sugiro: Sugiro que, até lá, você continue assassinando as palavras, porque as interpretações são perigosas demais, péssimas influências e temo que sejam as principais vilãs a impedir que eu chegue até aí. Os ecos também estão tomando conta do meu hardware, parece haver uma epidemia. Até então, reprimia qualquer crime, mas assassinar palavras tem suas vantagens. Já pensou, por exemplo, que eu esteja no meio do caminho, dentro de uma linha, e não haja espaço entre eu e uma palavra? Ou então, pode ser que uma delas agarre-me pelas pernas, que farei então? As palavras, as charadas acompanhadas de pontos de interrogação, interpretações precipitadas, continue a matá-las. Todas. Descartei a dose do meu plasil. Agora estou contagiada. Será possível amor à distância? Exílio e distância são praticamente irmãos da morte.
O amor é um carcereiro a carregar um molho de chaves na cintura. Tilintando.
O que eu venho fazendo: Estou esperando o projeto de um físico-quântico que disse ser capaz de teletransportar corpos em linhas telefônicas. Não sei como iremos fazer. Não posso fingir que não tenho medo, posso ter os ossos quebrados ao tentar sair. Também preciso lhe confessar sobre o vale ingresso que adquiri esta semana, um passaporte à reflexão. Você causou. O que eu sugiro: Sugiro que, até lá, você continue assassinando as palavras, porque as interpretações são perigosas demais, péssimas influências e temo que sejam as principais vilãs a impedir que eu chegue até aí. Os ecos também estão tomando conta do meu hardware, parece haver uma epidemia. Até então, reprimia qualquer crime, mas assassinar palavras tem suas vantagens. Já pensou, por exemplo, que eu esteja no meio do caminho, dentro de uma linha, e não haja espaço entre eu e uma palavra? Ou então, pode ser que uma delas agarre-me pelas pernas, que farei então? As palavras, as charadas acompanhadas de pontos de interrogação, interpretações precipitadas, continue a matá-las. Todas. Descartei a dose do meu plasil. Agora estou contagiada. Será possível amor à distância? Exílio e distância são praticamente irmãos da morte.
O amor é um carcereiro a carregar um molho de chaves na cintura. Tilintando.
16 Agosto, 2009
Você não me balança mais, baby.
Pensei que saberia a intensidade e o significado daquele empurrão durante minha permanência na cadeira de balanço no parquinho das Flores, esquina com a Rua Sérgio Cártano e em frente a padaria da dona Rosana.
Lembrei-me por acaso das vezes em que era surpreendida pela força das suas mãos em minhas costas até tudo começar outra vez. Eu voava e parecia voar tão alto, numa intensidade tamanha que supunha alcançar o céu. Era como se deixasse de ser quem sou por um instante e passasse a sentir que a ação do outro, esta vontade em querer que tudo e todos caminhem pra frente, fosse a mola propulsora do meu vôo. Única e inatingível.
Cheguei a pensar se o seu prazer não estava meravemente em ver meus cabelos balançarem sobre a suavidade da brisa. Um doce aroma escaparia das rosas. Meu vestido de brim colaria ao corpo como um amor incandescente e novo e confundiria o frio na barriga não ao medo de levar um tombo, mas ao olhar pra trás e me deparar com os seu olhos. De relance, o olharia ao virar minha cabeça para trás e você pensaria que seria para me certificar se está tudo bem.
Anteontem voltei ao mesmo balanço e para qual a lembrança me obrigara a sentar, assim, como alguém que espera um par de mãos nas costas, na esperança de alcançar o céu outra vez.
Ninguém apareceu, permaneci sentada. Você não me balança mais, baby.
Pensei que saberia a intensidade e o significado daquele empurrão durante minha permanência na cadeira de balanço no parquinho das Flores, esquina com a Rua Sérgio Cártano e em frente a padaria da dona Rosana.
Lembrei-me por acaso das vezes em que era surpreendida pela força das suas mãos em minhas costas até tudo começar outra vez. Eu voava e parecia voar tão alto, numa intensidade tamanha que supunha alcançar o céu. Era como se deixasse de ser quem sou por um instante e passasse a sentir que a ação do outro, esta vontade em querer que tudo e todos caminhem pra frente, fosse a mola propulsora do meu vôo. Única e inatingível.
Cheguei a pensar se o seu prazer não estava meravemente em ver meus cabelos balançarem sobre a suavidade da brisa. Um doce aroma escaparia das rosas. Meu vestido de brim colaria ao corpo como um amor incandescente e novo e confundiria o frio na barriga não ao medo de levar um tombo, mas ao olhar pra trás e me deparar com os seu olhos. De relance, o olharia ao virar minha cabeça para trás e você pensaria que seria para me certificar se está tudo bem.
Anteontem voltei ao mesmo balanço e para qual a lembrança me obrigara a sentar, assim, como alguém que espera um par de mãos nas costas, na esperança de alcançar o céu outra vez.
Ninguém apareceu, permaneci sentada. Você não me balança mais, baby.
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